Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Diário de uma quarentena

Em jeito de balanço

20.03.20 | Fatia Mor

Passaram-se 7 dias completos desde que nos enfiámos em casa. Dos cinco, o único que tem saído é o meu marido. Primeiro, porque ainda tinha que ir ao local de trabalho; depois, porque alguém tem que fazer as compras do essencial. 

Têm sido 7 dias a reaprender um novo ritmo. 

A noção de urgência desapareceu das nossas vidas. O acordar, o almoçar, ou o deitar passou a ser feito num ritmo próprio, diferente do que estávamos habituados. Não é necessariamente melhor. Pelo contrário. Parece que nos desleixámos dos horários. Ainda assim, nada de mau advém daí. O dia rende e permite-nos fazer tudo o que não fazíamos antes: trabalhamos, brincamos, cozinhamos, arrumamos e limpamos continuamente. O confinamento dá-me uma falsa sensação de segurança ao que se passa lá fora, especialmente nas vizinhas Espanha e Itália, cujas notícias me fazem falhar o coração e orar com mais força.

Estes dias têm servido para me emocionar com os gestos solidários que vou vendo. Por outro lado, sento-me preguiçosamente no meu sofá e sinto-me inútil perante a humanidade de tantos que se levantam para nos defender.

Acredito, no entanto, que estamos a aplanar a curva. Estamos a trabalhar, a uma só acção, para aplanar uma curva que separa o cuidado médico universal, de um cuidado médico diferenciado por critérios. Espero que nossos médicos nunca tenham que fazer a escolha sobre quem salvam ou quem deixam, literalmente, morrer. Curioso que, depois de tempos a discutir a eutanásia, nos deparemos agora com a incoerência de alguém ter que decidir quem vive e quem morre. Não é a mesma coisa, é certo, mas deixa-me a ponderar fortemente sobre a importância de toda e qualquer vida humana em razão dos contextos sociais que vivemos. De repente, a noção de primeiro mundo, de mundo civilizado, desapareceu debaixo dos nossos pés exigindo-nos contenção e lavagem contínua das mãos. 

Por outro lado, vejo vídeos e imagens de pessoas que deliberadamente e sem motivo aparente desrespeitam as directrizes. A insubordinação será apenas inconformismo crónico ou será ignorância profunda sobre os motivos de nos recolhermos? Não sei. Nem todos podemos ver ou entender o mundo da mesma maneira. Resta saber se aqueles que o vêem como eu serão em número suficiente para abrandar a progressão desta pandemia.

Os tempos mudaram. Chegaram os ventos da mudança. Atiraram-nos para uma realidade que há três meses parecer-me-ia pura ficção científica, se ma adivinhassem. Pergunto-me até quando estaremos a viver neste regime tão especial. E preocupa-me o que vai acontecer quando retornarmos à normalidade.

Será que mudámos as nossas prioridades? Será que vamos mudar a forma como vivemos com o outro? Terá o ser humano cumprido a sua metamorfose, depois deste tempo de casulo?

Gostava de acreditar que sim, mas preocupa-me que não aconteça. Que voltemos às nossas vidas, em falsa percepção de segurança, de que nada nos poderá atingir nem restringir a nossa liberdade.

Estamos em guerra, diz-nos a classe política. A recessão económica será ao nível de um estado de guerra. Durará meses. 
Para já, mantenho-me suspensa nesta ilusão que crio todos os dias para os meus filhos e que, ainda há pouco, na hora de dormir, uma delas me dizia "que bom que chegou este corona vírus para ficarmos todos em casa, juntinhos".

Do mau, tira-se o bom, não é verdade?

5 comentários

Comentar post